Editorial

Um bando de picaretas     

Não tive o privilégio de conviver com o pastor Ary Veloso, bastante conhecido no cenário evangélico por sua liderança na Igreja Batista do Morumbi (São Paulo), mas sei que, quando alguém dizia conhecer um crente, ele perguntava de imediato: “É picareta?”. Questão pertinente no contexto presente, em que ser cristão é algo tão estereotipado, quase sempre negativamente.

Pessoas de fé ou descrentes estão sempre às voltas com as (supostas) ‘indefinições da identidade cristã’. Isso têm levado muitos crédulos ao conhecido universalismo simplista – a despeito de estilos de vida, todos os caminhos levam a Deus – e ao vazio da existência sem propósito.

Enquanto isso, os comprometidos seriamente com Jesus Cristo tentam dimensionar a extensão de suas responsabilidades sociais e se questionam. Como lidar com os problemas do mundo? Como debater com quem insiste culpar Deus pelo mal e por todo tipo de sofrimento? Como dialogar nesse ambiente pós-cristão e pluralista?

O descuido dos evangélicos, ou de pelo menos boa parte deles, com responsabilidade social tem raízes históricas. Talvez, a mais significativa aponte para missões de origem anglo-saxã que vieram ao Brasil. Marcadas pela mentalidade pietista, enfatizavam a conversão pessoal e a santificação, dentre outros aspectos igualmente relevantes, mas com forte acento na separação do mundo. A hostilidade do catolicismo aos evangélicos quando de sua chegada nestas terras ainda como colônia de Portugal ajudou a moldar o comportamento de alienação em relação a importantes aspectos da cultura.

Nenhuma abordagem teológica sobre o papel do cristão na sociedade será completa sem a compreensão inicial de que o problema humano é de alienação, como bem explica Nicholls. Ou melhor, é um problema de dupla alienação: em relação a Deus e ao próximo. Consequentemente, a definição da identidade de quem é discípulo de Cristo está intimamente relacionada à sua reconciliação com Deus (que, por extensão, alcança o próximo).

A. Carson afirma, diante da narrativa bíblica da vinda do Filho de Deus, que temos três necessidades: (1) reconciliação com Deus, (2) transformação moral (sem a qual a rebelião contra Deus persiste), (3) reversão e vitória sobre todos os efeitos do pecado (o que abrange todos os relacionamentos mútuos e a morte). Isso é muito coerente com a proposta do Evangelho de pensar o todo a partir do indivíduo. A transformação do caráter produz uma espiritualidade genuína – de relacionamento íntimo com Deus, não de exterioridade vazia; de consciência da pecaminosidade latente, não de busca da perfeição estática; de gratidão pela redenção divina (que compreende a percepção de tudo que Deus está fazendo para restaurar a humanidade) –, além de uma expectativa escatológica (não por escapismo, mas por entendimento da realidade bíblica). Nada disso, no entanto, está dissociado da ética e da moral cristã que, antes de ser uma perspectiva coletiva, é conjunto de imperativos pessoais relacionados na mensagem inicial do Reino de Deus.

Ariovaldo Ramos, pastor, líder e ativista evangélico, defende a ideia de que a batalha pelo ser humano, nesta era pós-cristã, dá-se no campo da ética. Não só porque o que está em pauta é a questão das finalidades, mas também porque é o único campo onde as forças em prol do ser humano podem travá-la. Mas não é só ética. A cautela é importante porque mesmo não cristãos são capazes de reconhecer o valor dos princípios ensinados por Cristo. Klausner, estudioso judeu, por exemplo, prevê: “Se chegar o dia em que este código de ética for despojado do envoltório de milagres e da parte espiritual, o livro da ética de Jesus será um dos mais seletos tesouros da literatura de Israel de todos os tempos”. Recentemente, um articulista de jornal de grande circulação nacional, falando sobre família e criação de filhos, de certa forma, fez coro com esse entendimento ao dizer que precisamos de pais morais, não de pais materiais. O mundo sem Deus realmente acredita ser possível construir uma humanidade melhor apenas com ‘pessoas melhores’.

Tomando por empréstimo as palavras de Carson, mais uma vez, é possível estabelecer um contraponto bíblico a isso: “Jesus parecia estar dizendo: ‘O que precisamos é um novo homem e uma nova mulher, e não novas instituições. O que precisamos são novas vidas, e não novas leis. O que precisamos são novas criaturas, e não novos credos’”. Em palavras bem simples, não basta ser do bem, é preciso ser de Jesus (para quem é da CBMoema, palavras do querido Nomoto).

Jesus não se fez alheio à discussão que ocupa essas linhas. O caráter e a felicidade dos cidadãos do Reino foram descritos nas bem-aventuranças, nas quais o final é transicional – revelam a atitude do mundo para com os crentes. O Mestre ilustra seu ensino com dois emblemas (sal e luz) para descrever a influência do Reino sobre o mundo e a resposta dos Seus seguidores aos que os perseguem.

Não poucos pregadores e estudiosos abraçam a metáfora do sal como ilustração do gosto que o cristão empresta ao mundo. Embora o texto bíblico não faça menção das propriedades da substância tão própria da alimentação, prefiro pensar que a referência se faz pela capacidade de combater a degradação. Não importa quão desprezados sejam os cidadãos do Reino, Jesus afirma que eles fazem a diferença como verdadeiros obstáculos ao progresso maior do mal. Cristãos são ‘paradoxos ambulantes’: são diferentes do mundo, mas têm relação com ele; condenam o mundanismo, mas também rejeitam o isolacionismo. São eles como verdadeiros ‘desinfetantes morais’ no combate à corrupção moral e espiritual. O mundo é ímpio, é verdade, mas o que seria sem a oração dos santos?

Se a conotação da ação do sal apela ao invisível, muito apropriada à abordagem pessoal e individual, quase imperceptível no plano coletivo maior, a figura da luz assume protagonismo maior da mensagem do Evangelho, que brilha abertamente, publicamente, irradiando a beleza da boa notícia a partir da cruz e da tumba vazia.

Ou seja, ao usar a palavra “você” (Gr. Hymeis) no discurso, Jesus está dizendo, de certa maneira: “A bola está com vocês, mudem o mundo!”. Pena que muitos entendem isso de forma errada e pegam em armas; outros, por igualmente não compreender, submetem-se a poderes despóticos; há ainda os que não sabem como viver isso a partir de vidas devotadas a Cristo e não se fazem diferentes.

A identidade do cristão é marcada pela comunhão, pela solidariedade. A história evidencia que a presença do Evangelho na América Latina resultou em reforma agrária na Bolívia, atenção hospitalar em certos lugares da região andina, educação popular na Argentina, lutas a favor de indígenas e de seus direitos, dentre muitas outras ações. Mais recentemente, ao final da Segunda Grande Guerra, uma multidão de cristãos menonitas ‘invadiu’ a Alemanha para distribuir apoio humanitário aos ‘inimigos vencidos’.

Tudo isso para que a identidade e a instrumentalidade da pessoa de Cristo, de Seus discípulos, e de Sua Igreja seja um testemunho cósmico de Seu poder, como afirmou o apóstolo Paulo: “Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” – Efésios 3.10.

O mundo precisa das luzes orientadoras dos cristãos. Há pessoas esperando e ansiando por uma liderança para assumir e fazer aquilo que não se atrevem a fazer por si mesmos. A Coreia do Sul é um ícone atual da realidade transformadora do Evangelho. Os papéis que os cristãos desempenharam naquele país estendem-se aos campos social, econômico e político. Estima-se que um terço da população da Coreia seja de cristãos. Dez das onze maiores igrejas cristãs do mundo estão naquele lugar. Os crentes coreanos sãos os que mais enviam missionários ao redor do mundo, à exceção dos EUA apenas. Moffett, missiólogo e missionário, observou que isso se dá porque eles são evangelistas de coração, oram incessantemente, dentre outros predicados ‘comuns’ de quem segue a Jesus.

Voltando ao pensamento de Nicholls: “Os profetas evangélicos normalmente têm se mostrado fortes em repreender pecados individuais e pessoais cometidos contra Deus e o próximo, mas com frequência têm se mostrado fracos em discernir a natureza de pecados sociais, como tribalismo, racismo, monopólios econômicos, chantagem política, abuso dos recursos ambientais e guerras motivadas por cobiça. Tais pecados costumam ser encobertos por estruturas sociais aceitáveis e poucos são os profetas que os denunciam”.

Com a inversão de valores que domina nosso contexto social, correremos o risco de ser chamados de bando de picaretas, não de cristãos. Mesmo que os verdadeiros pilantras sejam os autores de caluniosas ações contra os seguidores de Cristo, isso jamais invalidará a realidade de que “a grande esperança para a sociedade moderna está em que haja um número crescente de cristãos individuais. Que a igreja de Deus se concentre nessa tarefa e não desperdice seu tempo e sua energia em questões que estão fora de sua alçada” (Martin Lloyd-Jones).

Wilson Avilla, pastor líder da CBMoema

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