Editorial – As novidades de Deus

Há cerca de 2700 anos, Deus afirmou estar fazendo algo novo (Is 43.19). Parece até brincadeira! Dá para entender (não concordar) porque muitos rotulam o Todo Poderoso como alguém que parou no tempo ou criou todas as coisas e as deixou à deriva. Quem assim pensa não se interessa por saber o que Ele anda fazendo. Ingênuo achar que a curiosidade e o encantamento com a vida – inerentes à existência humana – sejam suficientes para promover em todos o fascínio pelo Criador, a convicção sobre os direitos autorais exclusivos de sua criação e o interesse por suas novidades.

É preciso admitir que a mentalidade contemporânea tem infindáveis questionamentos sobre Deus e o Cristianismo. O pastor Timothy Keller, por exemplo, diz que os moradores de Nova York têm enorme dificuldade com a exclusividade da salvação por intermédio de Jesus como principal foco da pregação bíblica. A mente pós-moderna, ou hipermoderna, como sugere Lipovetsky, combate ferozmente a religião e a coloca como o principal problema do mundo. Nesse contexto, na visão de Mark Noll, observa-se um escândalo da mente evangélica, que reside “no fato de terem deixado os evangélicos de permitir que sua fé formatasse sua compreensão de mundo.”(1)

Essa vergonha impede-nos de perceber que a angústia tem dominado o mundo e a música é um dos sintomas dessa triste realidade. Ravi Zacharias argumenta, nesse sentido, com o pensamento de Andrew Fletcher, político escocês do século XVIII: “Dê-me a capacidade de compor as canções de uma nação, e não me preocuparei com quem escreve as suas leis”. Mangawaldi lembrou do triste fim de Kurt Cobain, que “cometeu suicídio porque o nada como realidade última faz do nada algo positivo. O nada não pode produzir alegria para o mundo ou levar sentido e esperança para a confusão da vida de alguém”.

Não importa quão vazia ou confusa seja a visão de mundo, Deus está agindo para levar pessoas a crer em seu poder para salvar por meio de Cristo e faz disso um testemunho cósmico e universal. Tanto quanto outros autores da Bíblia, Isaías conclamou um povo desanimado – qualquer semelhança com o nosso tempo não é mera coincidência – a ter coragem com a expressão “Não tema” (Is 43.1). Suas inspiradas palavras proféticas fazem com que queiramos “junto com os fiéis ao longo dos séculos, tornar-nos participantes da visão, atores no drama de esperança e salvação, adoradores daquele cuja glória enche toda a terra”.(2) Essa glória é, na verdade, uma profusão de novidades do Deus cuja capacidade de amar e criar coisas inéditas não tem paralelo; é também percepção e participação em seus movimentos.

Para prestar atenção nessas santas novidades, precisamos colocar o passado no seu devido lugar. Há sempre histórias dignas de ser lembradas, principalmente no que diz respeito às realizações do único que tudo pode. Contudo, por mais extraordinárias que sejam no contexto do povo de Israel ou no nosso, nada pode ofuscar o brilho dos livramentos presentes e principalmente da redenção em andamento. Ficar preso ao passado pode resultar em manter longe o que Deus quer fazer de novo.

É preciso dizer, na mesma linha de pensamento, que o interesse pelas novas dele só acontece quando o derrotismo é superado. “O desânimo é a insatisfação com o passado, o desagrado pelo presente e a desconfiança com o futuro. É ingratidão para com as bênçãos de ontem, indiferença às oportunidades de hoje e insegurança em relação à força para o futuro. É desconhecimento da beleza presente, despreocupação com as necessidades dos semelhantes, e descrença nas promessas antigas. É impaciência com o tempo, imaturidade do pensamento e indelicadeza para com Deus”, disse William Ward. Israel foi alertada para não se deixar seduzir pela acomodação, ideal ou não, do exílio na Babilônia. O novo precisa ser desejado, apesar de fracassos repetidos, de cansaço (até das ‘coisas de Deus’), deve ser componente da esperança. Jeremias, em seu livro denominado como suas Lamentações, apesar de toda a desgraça, não se deixou abalar e disse: “Nunca vou esquecer a desgraça […] Lembro-me de tudo – ah, e como lembro! […] Mas há outra coisa que lembro, e ao lembrar, continuo agarrado à esperança: o amor leal do Eterno não pode ter acabado, Seu amor misericordioso não pode ter secado. Eles são renovados a cada manhã” (Jr 3.19-23ª, A Mensagem).

A atualidade das dinâmicas de Deus só será percebida com o entendimento de que seus padrões não são humanos, portanto não necessariamente previsíveis todos. Ele é o Eu Sou que inverte seus modelos como bem entende. Isso é visto em registros e predições bíblicas, como em duas passagens dignas de destaque. Ele fez da água terra seca e prometeu fazer do deserto rios; tirou os israelitas do Egito e previu seu retorno à mesma terra por Sua poderosa mão. O Soberano tem padrões imutáveis que continuam como referências mais elevadas de sua revelação.

Deus está vivo ativo e fazendo o impossível. Costumamos entender o improvável como o que não tem explicação, mas na verdade isso se aplica ao que é novo. Em outas palavras, Ele está sempre nos confrontando com algo que tínhamos como inconcebível, daí nossas dificuldades para lidar com Suas novidades. Em um mundo de tantas tragédias e injustiça, Deus está promovendo harmonia. Alguns se debatem com essa ideia, negando-a veementemente, mas Ele não está limitado ao que se vê, muito menos com a limitada compreensão que o mundo secular tem de Sua natureza. Suas atividades estão alinhadas com a restauração de toda a criação, algo que será consolidado no dia messiânico, quando todos os que estão em Cristo serão atendidos por um mundo transformado. Enquanto isso não acontece plenamente, Sua provisão é simbolizada de muitas formas, como a água, símbolo de provisão e sustentação de Deus para os israelitas e para os gentios, na figuração de toda a salvação que viria a ser oferecida.

A originalidade de Deus está resumida no primeiro capítulo de Gênesis e nos seguintes se descobre que a queda não o obrigou a dar novas provas de sua capacidade criadora, tampouco o pressionou a atender às necessidades imediatas de cada ser humano. A graça, antecipada em milênios, derramada sobre gerações e gerações, encarnada em Cristo, continua coerente com a provisão daquilo que tem valor eterno: uma nova salvação não por méritos pessoais (Is 43.22-28 e Ef 2.8-9); uma nova adoração sincera e motivada pela alegria da libertação (Is 43.21-22); um novo perdão (originado na misericórdia e na prerrogativa divina para isso, como mencionado por Jesus em Mateus 9.2-6 – “Para que vocês saibam que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados”.

Tudo isso faz sentido se entendermos que a coisa nova, em sentido amplo, é a pessoa de Jesus Cristo, que faz desaparecer a angústia do mundo que não pode salvar a si mesmo.

A igreja tem uma missão: ser instrumento de Deus para que as pessoas conheçam as novidades que realmente interessam, mas que não estão em nenhum noticiário. “Na providência de Deus, a igreja local é o principal ator na realização dos propósitos dEle para a raça humana, e a visão essencial de Deus para a igreja ultrapassa até o palco global. Deus tenciona que nossa influência, por meio de seu Espírito, tenha implicações cósmicas, no sentido literal. E a forma bíblica da igreja foi planejada especificamente para acomodar-se à função que Deus tenciona a que igreja cumpra.”(3)

 

Wilson Avilla, pastor-líder da CBMoema

 

1 Citado por Alister McGrath
2 LaSor, Hubbard e Bush
3 Dever & Alexander

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