Editorial – Quando eu crescer quero ser igreja!

O desenvolvimento da humanidade, como a aprendizagem, vai do concreto para o abstrato. Piaget afirma que deixamos gradativamente de depender daquilo que pode ser percebido pelos sentidos para elaborações predominantemente mentais. No chamado estágio pré-operatório (dos 2 aos 7 anos), o desenvolvimento da linguagem impulsiona a modificação de outros aspectos: intelectual, afetivo e social. Com esses, evoluem a formação de conceitos, regras, relações entre objetos e a busca de razões em consonância com a maturação neurofisiológica. O estudioso suíço entendia que o desenvolvimento saudável requer um ambiente de cooperação, motivação e de ações que favoreçam tais modificações. Naquilo que chamou ‘jogos simbólicos’, a criança desenvolve noções de espaço, tempo, causalidade e constância dos objetos. No aparentemente simples ato de brincar e representar, ela passa gradativamente do egocentrismo para o altruísmo. Paralelamente a isso, constrói-se o conhecimento com a interação do sujeito com o meio e formam-se conceitos morais e sociais, autoconceito, desenvolvimento motor global, organização espacial, equilíbrio, organização temporal e esquema corporal em um processo denominado pelo mesmo pesquisador ‘estrutura de conjunto’. A assimilação dessas concepções promoverá a ‘equilibração’ e a passagem ao estágio posterior, denominado operatório concreto (7 aos 12 anos); período em que se iniciam as construções lógicas, as relações entre os pontos de vistas diversos (reversibilidade) e condução de ações físicas ou mentais para alcançar um fim, pensando nas mesmas ações em modo reverso. Aos poucos, cada imaturo ser vai se tornando autônomo em sua relação com os adultos, com suas próprias formulações sociais e morais ‘balanceadas’ pelo ambiente. No período das operações formais (entre 11 e 12 anos), a passagem do concreto para o formal e abstrato se mostra mais evidente e as operações, ações e pensamentos se dão no campo das ideias, já sem a necessidade das referências concretas, graças às habilidades cognitivas para lidar com hipóteses. Mesmo sem a experiência, há capacidade para inferências e considerações sobre informações abstratas.

À primeira vista, todas essas informações parecem desconectadas da Teologia, no entanto, ousamos dizer que há, na história da revelação de Deus, incríveis relações com o desenvolvimento humano, como proposto no início, sem pretensão acadêmica ou científica. Assim as vemos na igreja, em sentido amplo, e nas realidades das igrejas locais. A criação é um movimento impulsionado pelo amor do Criador, cujo eixo é o Verbo. Claro, dizemos isso respaldados pelas Escrituras que afirmam com autoridade que a encarnação do Filho de Deus promoveu os meios para que todos os cristãos cheguem a um estado de completa unidade e à plena perfeição. Em Cristo, a igreja torna-se madura, adulta. O Novo Testamento enfatiza a necessidade de os crentes não serem como crianças, em fraqueza, credulidade, rebelião e outras características da infância, mas que demonstrem sua fé. Obviamente, os apóstolos que escreveram às igrejas no princípio da era cristã tinham em mente que o crescimento é gradual. Uma criança não se torna plenamente homem ou mulher em um único momento ou ato. Tal crescimento é, por vezes, silencioso, quase imperceptível (o que, aliás, é próprio da natureza como um todo). Tudo no universo alcança a perfeição em movimentos paulatinos. Em Efésios 4.13, mais especificamente, o apóstolo Paulo afirma que a perfeição cristã percorre longo caminho em que Cristo indica a direção, caminha junto e espera ao final. Ele compara o desenvolvimento do corpo místico que é a igreja ao crescimento humano. Em outras palavras, a igreja também tem uma infância, juventude e idade adulta, o que significa dizer ainda que a maturidade está condicionada à plenitude em Cristo.

A epístola aos Hebreus é outro conjunto de ensinamentos bíblicos notáveis por suas alusões ao Antigo Testamento e o emprego de semelhanças tipológicas entre o velho e novo, o terrestre e o celestial, o temporal e o eterno. Hughes defende a visão de que a carta foi escrita com ênfase prática, tendo em vista persuadir seus leitores a resistir à tentação de buscar um alívio das dificuldades associadas à sua confissão cristã, ao acomodá-la ao regime da aliança anterior. Nesse sentido, Fanning mostra os contrastes de superioridade estabelecidos por Cristo, como Sumo Sacerdote, que não poderiam jamais ser abandonados. Ele não entra em um santuário terreno, mas em outro, celestial, não visto ainda, na presença de Deus. Ele está próximo do Pai para que Sua família na fé possa desfrutar de Sua comunhão em um plano tão espiritual quanto abstrato, encontrando misericórdia para todos os momentos de necessidade. O Supremo Sacerdote santifica não apenas o exterior, por meio de cerimônias palpáveis, mas purifica a consciência e provê perdão completo e eterno pela nova aliança. Os objetos e procedimentos da experiência concreta de expiação não são mais necessários, a graça de Deus é plena em realizações imateriais e percepções íntimas dos que Lhe são fiéis. Hebreus anuncia um novo estágio na salvação de Deus, preparado, prenunciado anteriormente, para ser alcançado na cruz. Seus argumentos comparativos apontam uma ‘epistemologia genética espiritual’, um crescimento gradativo na semelhança de Cristo.

Temos o grande privilégio de viver em um momento da revelação divina onde o concreto já não é mais necessário para compreensão dos propósitos salvíficos de quem nos amou primeiro, muito embora Ele continue promovendo efeitos tangíveis de sua graça e misericórdia em nossas vidas. Somos felizes por fazer parte do corpo de Cristo, que em sua plenitude tem os meios para se desenvolver, corpo que é a igreja. Pela fé, entendemos seus movimentos e deles participamos em uma comunidade local, que cresce em maturidade para honra e glória exclusivas dEle!

 

Pastor Wilson e Sirley Avilla

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