Viagem missionária

Relato de Hellen Quintela, membro da CBMoema e dentista, a respeito da viagem missionária de curto prazo para atendimento médico e odontológico de refugiados sírios no Líbano de 13 a 24 de maio de 2017

Essa missão começou em meu coração bem antes do embarque.

Ao ouvir falar dela, minha primeira resposta foi: “Sim, claro!”. Depois, comecei a pensar. Guerra? Riscos? Bombas? Tenho filhos, como ir e me arriscar a não voltar? Não posso ir.

Fugia do pastor Marcos Amado, que estava arregimentando os profissionais de saúde, mas minha cabeça não parava de pensar nisso. Muitas vezes, chorei porque o desejo era enorme, mas me parecia insano ir.

Dias e dias se passaram e fomos ao Encontro de Carnaval da CBMoema. Lá, conversei com a Dani e o Roque Toledo, um casal de médicos de nossa comunidade. Ambos lutavam com as mesmas questões: ir envolvia riscos e dinheiro. Não apenas despesas com voo e hospedagem, mas também não ganhar durante o período em que estaríamos lá, já que temos profissões autônomas.

Voltamos do encontro e, no dia seguinte, toca o telefone. Era o Roque: “Amiga, nós vamos. Se a gente esperar tudo estar 100% certo, ninguém nunca vai”.

Chorei de novo porque achei que tudo estava resolvido, mas não.

Chega o dia de dar a resposta final. Ligo para o pastor Marcos e peço que aguarde até a noite, quando estaria em casa com meu Pequeno Grupo. Passei o dia chorando e falando com todos que podia, pedindo que orassem por mim. Ouvi um dentista contar que havia sido convidado uma vez para uma viagem semelhante, não foi, mas ficou incomodado ao saber que pessoas choravam de dor de dente noites afora.

À noite, com nossa turma em casa, Cris toca uma música cujo refrão diz: “Segura na mão de Deus e vai”. Chorei igual criança, certa de que Deus estava me respondendo tão claramente como eu havia pedido! Decidi ir. De forma inexplicável, o medo se acabou.

Para minha surpresa, a necessidade de tradutores e de alguém que cuidasse da farmácia, além de ele poder cuidar do blog da viagem e captar imagens, fez o Luciano, meu esposo, se dispor a ir também.  Milagrosamente, sem ter ainda um ano no trabalho para poder solicitar férias, a chefe dele abre exceção e o libera.

Começamos os preparativos, as reuniões e, conhecendo o grupo, tudo foi ficando cada vez melhor.  Tudo transcorreu perfeitamente na ida. Eu, que me pelo de medo de avião, até dormi. Aprendi a ter medo de carro, isso sim. Se corremos algum risco, foi no trânsito do Líbano!

Na Odontologia, tive o prazer de dividir o ofício com outros dois dentistas: a Joelma Woolley, que virou minha mana, e o Jorge Sazaki, nosso guerreiro de 74 anos, grande exemplo pra muitos jovens molengas. Nunca havíamos trabalhado juntos. O Jorge, eu sequer conhecia. Quando chegamos lá, o entrosamento foi total. Deus preparou tudo, até o fato de termos apenas dois equipamentos e três “cadeiras” para três dentistas.

Sem combinação prévia alguma, a Joelma ficou em um equipamento à minha direita; o Jorge, em outro, à minha esquerda; eu, no meio, sem equipamento algum. Melhor coisa não podia ter acontecido! Minha formação é voltada para cirurgia, então fiquei encarregada das extrações necessárias, que não demandam o “motorzinho”. A Jo atendeu as crianças e o Jorge, os adultos, ambos fazendo restaurações. Eu atendia adultos e crianças apenas extraindo dentes sem condições de restauração, destruídos, com abscessos, que geravam muita dor aos pacientes. Se encontrava algum dente para salvar, encaminhava a meus colegas.

A posição também foi estratégica pois ambos não falam inglês, então, ao mesmo tempo que eu operava, socorria-os traduzindo do português para o inglês, para que a tradutora transmitisse ao paciente em árabe e, tendo a resposta, me reportasse em inglês para que eu devolvesse em português para os colegas. Ufa!

Em meio a tudo isso, perguntam: “Vocês estão evangelizando essas pessoas?”. Pregamos com nossa própria vida demonstrando amor ao próximo. Um adolescente muçulmano olhou para mim, depois de perder alguns dentes pelas minhas mãos, e disse: “Love you, doctora!”. Missão cumprida!

Agradeço a Deus pelo privilégio de participar.

Obrigada, filhos, porque, apesar de expressarem o medo de a gente não voltar, entenderam a necessidade da nossa ida sem choros nem pedidos pra que não fôssemos.

Agradeço pelas orações de cada um.

Amigos daqui que levaram nossas filhos para passear,  saibam que foi dessa forma que também participaram da missão.

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